TATUAGEM

Pensava em se tatuar um dia. Pensava nisso há anos, pensava... sentia que seu estilo, seu tipo, seus gostos, tudo em si pedia uma marca, uma tatuagem. Mas a dor, os riscos, o medo. Desistia sempre antes mesmo de se decidir, não se permitia concretizar seu desejo. Antes, não tinha dinheiro; depois, não tinha desenho; faltava-lhe mesmo é coragem. Ia a estúdios, fazia orçamentos, ficava imaginando como se sentiria mais “ela” se tivesse a desejada “tatu”. Mas os meses, ou melhor, os anos de uma epiderme sem a querida marca se somavam. A pele de Amy Winehouse causava-lhe espanto e inveja. Via meninas pela rua cheias de tatus e as achava tão pueris para tê-las... moda, só podia ser por moda. Ela não, sentia-se preparada. No ponto. Não era uma decisão induzida, não seguia tendências que tanto odiava, uma tatuagem para ela era tão necessária para que ela fosse o que era, para comunicar isso. Mas não a tinha. Talvez fosse a voz da mãe que, desde sua infância, falava sem parar: Isso é coisa de ladrão, de gente que não presta, de mulher da vida, de maconheiro, de drogado, de gente que não presta mesmo... Quiçá, o medo de sua mãe pensar que ela fizesse parte dessa lista famigerada tolhesse sua vontade, inibisse sua realização. Não era completa sem a tatuagem, sabia que seu corpo era o lugar perfeito para uma “tatu”. Sofria com aquela ausência.
Mas a tatuagem não vinha... e não veio...
Uma adolescência sem tatuagem, uma juventude sem tatuagem... Hoje, pensa que seu corpo já não merece ostentar uma marca tão forte: perdeu seu estilo, seu tipo, mudou seus gostos. Seria ridículo – pensa às vezes – ainda que aquela vontade, apesar de abafada, exista. Culpa das palavras maternas? Para não ser o que a mãe não queria, passou a ser o que não era? Só conseguiu ser igual. Sem nada no corpo que a identificasse ou revelasse, a não ser uma indesejada cicatriz de um acidente antigo, tatuagem é apenas uma linda e lírica música que ela sobeja sempre quando triste...

Nívia Maria Vasconcellos

DESAMPARO

Antônio Brasileiro
Não recitei para ti o verso que guardei
Na memória e no coração.

Outros me viram, ouviram e aplaudiram
As palavras que eram para ti.

Outros, não tu, estavam a minha frente,
Não tu, a quem tanto esperava.

Todos lá, mas, capturada por minha retina,
Tua ausência se impôs mais forte.

Presenças esmaecidas pelo teu abandono,
Teu abandono de mim.

Não entendes minha tristeza e silêncio?
Nem eu a tua falta e omissão.


Conflito

à Mirian Aislane 
 Diante do horizonte, tudo perde a razão. Todo olhar parece insuficiente para alcançar tudo o que pode ser conquistado, e, como um obstáculo, um limite se impõe a cada passo. Braços parcos, finitos para tamanha grandiosidade. O rapaz, à janela, morre... prenhe de sonhos incompletos... Tudo o que é vivo não dura o bastante para ser eterno.       

CONFLITO - DE GABRIEL FERREIRA
DESENHO DE POESIA-INSPIRADO NESSE CONTO
ACRÍLICO/ TELA DE GAZE
(50x50)cm
2006






Solitas

O céu amanheceu escuro...
Até certos trovões foram ouvidos
Com um espanto quase infantil.

Procurei, debalde, a meu lado,
A presença que não estava,
Que eu sabia não estar.

Aqui, junto a mim,
Só a miragem e um tanto
De saudade... e pronto.

Mas essa saudade é um lugar:
O lugar onde eu te encontro.



Nívia Maria Vasconcellos